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Tudo está sincronizado, como dizia Jung:
A sincronicidade é uma forma de a vida mostrar que tudo está interligado — especialmente nos momentos de grande transição ou decisão.
Tá, mas o que síndrome do impostor tem a ver com sincronicidade?
Esses dias eu estava me autoavaliando e pensando sobre essa tal síndrome do impostor. Talvez eu estivesse vivendo isso, porque em algum momento pensei que não merecia viver o que estava vivendo, ou que eu não era boa o suficiente para aquela vaga de trabalho, e que estava "roubando" o lugar de outra pessoa mais capacitada que eu.
Comecei a pensar nas várias hipóteses de ser realmente uma “síndrome do impostor” — que, na verdade, nem é uma síndrome, mas sim um nome para descrever uma pessoa que acredita que chegar a determinado lugar seria uma fraude. Mas… e se não for uma fraude? E se for uma construção da sociedade que muitas vezes pode ser etarista, racista, preconceituosa e por aí vai um montão de construções que as pessoas tem como verdades absolutas e não se questionam, e não tem uma construção mais crítica de alguns assuntos.
Em um determinado momento da minha vida, ouvi de uma pessoa com curso superior, doutorado me dizer, que talvez eu não fosse escolhida por uma empresa para fazer estágio, por conta da minha idade, e que as empresas preferem jovens, que tem mais energia e podem não fazer tanta exigência, e aceitar qualquer oportunidade. Como se todo mundo soubesse o que quer assim que nasce — o que não foi o meu caso. Apesar de gostar de muitas coisas, para mim escolher uma profissão até hoje é um desafio. Fazer algo que eu goste, que me deixe satisfeita, e que esteja alinhado com o meu propósito. Porque eu acredito que o trabalho não é apenas trabalho: é preciso ter uma paixão, algo que brilhe os olhos.
Ter um propósito, para mim, a essa altura do campeonato, é o que realmente importa.
Segundo a pesquisadora Ruchika Tulshyan (autora de artigos na Harvard Business Review) e a psicóloga Dra. Valerie Young, rotular as pessoas com esse “diagnóstico” "a síndrome do impostor" pode invisibilizar fatores sociais reais, como:
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Machismo e racismo estrutural no mercado de trabalho;
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Ambientes corporativos que não validam a diversidade;
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Falta de representatividade em cargos de liderança.
Em vez de culpar a pessoa (“você tem um problema de autoconfiança”), é importante olhar para o contexto que alimenta esse sentimento.
Agora que fizemos uma crítica a tal da “síndrome do impostor”, vamos entender o que ela é:
A Síndrome do Impostor (originalmente chamada de Impostor Phenomenon) foi criada pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978, nos Estados Unidos.
Como surgiu
Clance e Imes começaram a perceber, durante sessões clínicas e pesquisas, que mulheres altamente capacitadas, bem-sucedidas e inteligentes:
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Não conseguiam internalizar seus sucessos;
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Acreditavam que estavam enganando os outros;
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Sentiam que eram “fraudes” prestes a serem descobertas.
Elas estudaram 150 mulheres com histórico de desempenho excelente (professoras universitárias, estudantes de doutorado, profissionais liberais) e todas compartilhavam esse medo irracional de serem desmascaradas — mesmo com provas objetivas de competência.
Agora vamos pensar em todos os aspectos: o que acontecia em 1978? Como era a construção social?
A década de 1970 foi um período de transição para as mulheres. Mais delas estavam entrando no ensino superior e no mercado de trabalho.
O ambiente ainda era profundamente patriarcal e sexista.
Esperava-se que a mulher fosse mãe, esposa, dona de casa — mesmo que também estudasse ou trabalhasse.
Mulheres bem-sucedidas frequentemente ouviam que estavam “abusando da sorte” ou que “não estavam no lugar certo”.
Ambiente profissional masculino
Os cargos de liderança, a academia, a política e a ciência eram dominados por homens.
Mulheres que ocupavam posições de destaque eram muitas vezes isoladas, subestimadas ou tratadas como exceções.
Isso criava um cenário propício para o surgimento do sentimento de “fraude” — elas não viam muitas outras mulheres ali para se espelhar.
Movimentos sociais em ebulição
O segundo movimento feminista (a “segunda onda”) estava no auge, com pautas como:
Também estavam em pauta os direitos civis, movimentos LGBTQIA+ e conflitos geracionais.
Esse momento de ruptura gerava choques de identidade: pessoas tentavam se posicionar em um mundo que estava mudando, mas as estruturas ainda eram conservadoras.
Cultura de massa e padrões de sucesso
A mídia reforçava padrões de beleza, sucesso e comportamento quase inatingíveis.
O “sucesso feminino” era frequentemente retratado como algo ligado à aparência, casamento e filhos — não à conquista intelectual ou profissional.
Isso fazia com que muitas mulheres duvidassem de seu valor real fora desses moldes.
Ascensão da psicologia humanista
Nos anos 1970, havia grande interesse por desenvolvimento pessoal, autoajuda e psicologia humanista.
Era um momento em que se falava mais sobre emoções, autenticidade, autoestima e sentido da vida.
O conceito da Síndrome do Impostor encaixou-se bem nesse cenário: um nome para um sentimento comum, mas até então pouco discutido.
Resumindo
A construção social de 1978 era marcada por:
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Um mundo em transformação, mas ainda cheio de desigualdades;
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Pressões contraditórias sobre a mulher: seja excelente, mas não apareça demais;
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Falta de representatividade feminina nos espaços de poder;
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Um ambiente social que reforçava dúvidas internas em pessoas que estavam rompendo barreiras históricas.
Foi nesse caldeirão que o termo Impostor Phenomenon nasceu — não como uma síndrome clínica, mas como uma tentativa de dar nome a uma ferida coletiva. Especialmente das mulheres que estavam tentando ocupar espaços que antes lhes eram negados.
E para finalizar: antes de você achar que está com essa síndrome, analise o cenário.
Um grande beijo e até o próximo! 💛
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