Por que dizem que mulheres estão estressadas por falta de sexo: um olhar sobre esse pensamento machista


Estamos falando sobre o alto índice de feminicídio no Brasil, mas também precisamos falar sobre as mães que educam esses meninos.

Quando dizem que uma mulher está estressada por falta de sexo, não estão falando sobre ela — estão tentando diminuir o que ela sente. É bem triste como, em 2026, ainda existem pessoas que apenas reproduzem falas, sem se certificar do porquê estão repetindo.

Nessas últimas semanas tive algumas experiências que parecem bestas, refleti a respeito e resolvi trazer aqui sobre. Sobretudo, fiquei feliz com o meu posicionamento, porque muitas vezes eu me diminuí ou escondi meu posicionamento para ser aceita na sociedade. E, como eu ouvi isso mais de duas vezes por pessoas diferentes, não poderia deixar passar batido, ainda mais por ser um tema IMPORTANTE E NECESSÁRIO. Talvez tenha alguém passando pelo mesmo e, sinceramente, eu me senti perdida, buscando com quem eu poderia me expressar a respeito. Dito isso, vamos à história.

O primeiro momento em que ouvi isso foi de um homem no meu convívio, que disse que eu deveria ter um namorado. E eu, no exato momento, questionei: por que eu deveria ter um namorado? Eu estou feliz da maneira que estou vivendo a minha vida. E, automaticamente, ele respondeu: porque é legal ter alguém ao lado e etc. E eu ainda questionei mais: tá, mas por que eu deveria ter um relacionamento, sendo que eu estou bem da maneira que estou? E ele não teve argumentos plausíveis que me fizessem mudar de ideia.

Logo pensei: ué, será que é mais um homem falando isso para tentar me manipular para eu querer ficar com ele? E, até então, o mesmo cidadão nunca mais tocou no assunto, a não ser com brincadeiras do tipo “você vai ver se…” ou “se eu te pegar…”, e por aí vai. 

No outro momento, no qual trabalho com uma mulher, estávamos conversando, e como eu confiava nela, contava algumas coisas pessoais. Ela sabia que eu não estava saindo com ninguém, e falou, na frente de outras pessoas, que eu estava com “teia de aranha” (um termo que as pessoas usam para dizer que uma mulher não tem relações sexuais há muito tempo). Achei problemático ela falar da minha vida pessoal no refeitório, onde tinham outras pessoas, e eu fechei a cara na hora. Porque, até então, se eu quisesse que todo mundo soubesse da minha vida pessoal, eu falava abertamente. Mas ela se encarregou desse papel, porque estava inconformada com o “meu comportamento” em relação a homens.

Passou isso, e eu consegui conversar com ela numa boa, dizendo que não falaria mais nada para ela, porque ela tinha língua solta. Então eu não comentava mais nada sobre a minha vida pessoal.

O tempo passou, e no último evento, que para mim foi a gota d’água, eu havia comentado com ela que tinha gostado de um rapaz, mas descobri que ele tinha namorada. E, na frente de outras pessoas que eu não conhecia — na recepção do trabalho, que é um restaurante — e com uma senhora aguardando seu delivery sentada, uma senhora bem simpática, ela falou alto como eu havia descoberto que o rapaz tinha namorada.

Na hora eu pensei: não acredito que ela está fazendo isso. Então olhei para a cara dela e fiquei quieta, e ela continuou perguntando como se fosse a coisa mais natural. Eu olhei para ela e acenei um “não”, como quem diz “não faça isso”, e saí do ambiente. A senhora e ela se olharam e riram, como se se conhecessem há anos.

Quando retornei ao ambiente, falei firme para ela:
— Eu não gosto que você fale coisas que eu te falei no off em público. Isso é um assunto pessoal meu!

Ela me olhou com uma cara de espanto e continuou rebatendo, dizendo:
— Mas não tem nada a ver, a mulher não sabia do que estávamos falando.

E eu rebati:
— Se você acha que não tem nada a ver, tudo bem, mas EU NÃO GOSTO. Só quero ser respeitada por isso. São meus assuntos, e eu falei com você, não para ficar falando no restaurante.

Enfim, ela continuou com uma cara de indignação e não aceitou que eu não havia gostado, diminuindo meus sentimentos e vontades, reforçando apenas o que ela achava.

O dia de trabalho seguiu, e eu voltei a conversar com ela, até porque trabalhamos juntas, e não toquei mais no assunto.

Chegando no final do dia, ela veio com o seguinte conselho:
— Você precisa namorar, dar uns beijinhos!

E eu, na hora, rebati:
— Você está falando isso só porque eu falei para você que não gostei de uma atitude sua?

E ela respondeu:
— Sim, você está muito nervosa e estressada.

Eu respondi:
— Você tem um pensamento machista, porque não sabe lidar com uma mulher que diz o que gosta e o que não gosta.

A cara que ela fez ao ouvir isso foi impagável.

Naquele momento eu pensei: eu não acredito que uma mulher, mãe, tem essa fala em pleno 2026. E detalhe: ela é mais nova que eu.

Eu juro que fiquei pensando: será que ainda adianta rebater algo?

Voltei para casa com isso na cabeça e pensando: isso não é uma amizade saudável. A pessoa está tentando me enfiar goela abaixo o que eu devo ser e fazer, nessa altura do campeonato. Então a melhor coisa é me afastar, me retirar e nunca mais falar sobre minha vida para essa mulher. Vínculos cortados.

Refleti muito a respeito e mandei mensagem para uma amiga minha, que tem entendimento dessa construção social, e desabafei.

Porque, ainda voltando para casa, eu estava com o pensamento: será que estou sendo muito radical? Será que eu deveria ser mais branda? E uma confusão na cabeça sobre com quem eu poderia conversar que tivesse uma compreensão imparcial do assunto.

Porque eu não estava querendo reforçar que eu estava certa, mas gostaria de ouvir outras opiniões. Mas não adiantaria falar isso com alguém que reforça esse comportamento machista na sociedade — seria em vão. Então sim, reforcei com uma pessoa amiga que esse comportamento é problemático.

E esse comportamento de querer controlar o corpo da mulher é mais comum do que imaginamos. Onde eu trabalho, por exemplo, há esse tipo de comportamento, porque as pessoas acreditam que é preciso ter um relacionamento para ser feliz, e que uma mulher, quando escolhe não ter, fica estressada.

Achei o tema muito interessante e fiz algumas buscas sobre estudos e teses a respeito, e encontrei o livro do filósofo francês Michel Foucault, “História da Sexualidade”.

Contexto e estrutura conceitual
A série rompe com a “hipótese repressiva”, segundo a qual a modernidade teria silenciado o sexo. Foucault propõe que, desde o século XVII, o poder dissemina discursos científicos, jurídicos e confessionais que produzem saber e controle sobre os corpos. O conceito de biopoder surge como central, explicando como a vida e a sexualidade tornam-se campos de gestão política.

Impacto e recepção
“História da Sexualidade” influenciou profundamente a filosofia, a sociologia, os estudos queer e as ciências humanas. Seu enfoque no entrelaçamento entre saber e poder inspirou debates sobre identidade, moralidade e política do corpo. A publicação póstuma do quarto volume renovou o interesse na obra, evidenciando a continuidade do projeto foucaultiano sobre a formação do sujeito ocidental.

Ou seja, esse pensamento vem de muito tempo, e como em uma aula de psicanálise conversamos, isso é um senso comum que é repetido na sociedade, mas sem base real. Ou seja, até que ponto estamos questionando nossos comportamentos e não apenas reafirmando o que a sociedade espera de nós?

E, para encerrar, qual é o preço que pagamos para sermos autênticos, por escolher caminhos que queremos e não o caminho que alguém nos impôs?

Um grande beijo e até o próximo.

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